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Os desafios de educar os filhos no século 21

A renomada psicóloga Camila Cury, especialista na Teoria da Inteligência Multifocal, em Análise do Comportamento Humano e diretora geral do Programa Escola da Inteligência, esteve no último dia 21 no Colégio Glorinha para conversar com pais sobre os desafios de educar os filhos no século 21. A palestra, que lotou o Salão Nobre, teve como tema “Sua família está preparada para o novo mundo?”.

Vale lembrar que a Escola da Inteligência é considerada hoje o maior e mais completo programa de educação socioemocional do mundo, cujo objetivo é formar jovens pensantes e emocionalmente saudáveis. Camila lidera mais de 350 mil alunos no Brasil e estima que cerca de um milhão de pessoas já tenham sido impactadas com o programa.

Confira a seguir os principais tópicos abordados pela especialista:

Revolução socioemocional

“Olhar o passado é importante como referência, mas ficar preso nele não será suficiente para educar nossos filhos nos dias de hoje. O grande desafio é olhar para o mundo como ele está e entender os avanços. Tivemos importantes mudanças, como a revolução industrial, a revolução tecnológica e, agora, estamos passando pela terceira grande revolução, que é a socioemocional. Nunca tivemos uma geração tão abastada e, ao mesmo tempo, tão só, tão ansiosa, com tantos medos e complexos emocionais. Se não olharmos para os nossos filhos, hoje, nós vamos perdê-los, assim como muitos pais bem intencionados estão perdendo seus tesouros.

A sociedade moderna colocou padrões de felicidade altíssimos e isso tem esmagado a nossa saúde mental. Várias pesquisas já comprovaram que o excesso de uso das mídias digitais tem aumentado a infelicidade a níveis absurdos. O ser humano é comparativo. Você vê aquilo e fala: Poxa, meu marido não me trouxe aquele buquê de flores igual ao fulano trouxe para ela. Nossa, minha esposa não tem o corpo bonito igual essa outra tem. Meu filho não é comportado, ele não sorri nas fotos como o fulanoO recorte da realidade é um problema. E se isso afeta os adultos, quanto mais as nossas crianças e jovens”.

É preciso saber ouvir

“Não é o quanto você se doa pelo seu filho que fará com que ele tenha o coração grato a você. A pergunta é: como você tem cobrado a conta no final do dia? O problema é que nós não escutamos o que o outro precisa. Às vezes, seu filho não queria que você trabalhasse tanto para dar a ele o tênis novo. Ele só queria ter cinco minutos a mais com você.

Nós precisamos conversar com nossos filhos. Tem pais que só esperam que seus filhos reconheçam todo o seu esforço. Sinceramente, tem conta que não vai fechar nunca! O seu filho nunca vai conseguir pagar todas as noites que você ficou sem dormir, toda preocupação que você teve. Então, não cobre isso dele! O excesso de cobrança só vai gerar frustração, porque o seu filho não é aquilo que você sonhou. Eu preciso pensar como posso conduzir o meu filho para que ele seja a melhor versão dele”.

Expectativa x Frustração

“Tem pais que passam a vida toda gerando nos filhos uma expectativa e, com ela, uma frustração do outro lado de que eu não sou bom o suficiente para o meu pai e para a minha mãeVocê não tem noção de como as nossas crianças e jovens têm chorado e você não tem visto.

Às vezes, você fez tanto, mas aqueles cinco minutos - o tempo que você tem - é cobrando o que ele não fez. Seu filho não tem que ter medo de você tirar o videogame ou smartphone dele, nem que fique de castigo para não sair. Ele tem que ter medo de te magoar. Se ele não tem medo de te magoar e te ver triste, você precisa repensar a forma como está educando”.

Valorize mais a pessoa do que o erro

“A melhor oportunidade de conquistar seu filho surge quando ele te frustra ou tem um comportamento totalmente inadequado. Ele está esperando que você eleve seu tom de voz, que dê um sermão nele ou faça aquele discurso que já fez mil vezes (e ele consegue completar todas as suas frases), mas você muda completamente a oratória e valoriza mais a pessoa do que o erro.

Quando nós usamos os erros dos nossos filhos para mostrar como nós os amamos e apostamos neles, no erro você encara o problema de forma completamente diferente.

O seu olhar "grita" 

“Não sei como você olha para o seu filho, mas o seu olhar fala muito mais do que um discurso. Muitas vezes nossos filhos chegam ao limite, estão angustiados, ansiosos e não conseguem ter uma resposta adequada. Isso não significa que ele não te ama, que não está ouvindo o que você diz ou que não se importa com você. Naquele momento ele não tinha para dar e você, por ser mais maduro, experiente e estratégico, olha aquele erro e valoriza o errante para corrigir o erro. Essa é uma das ferramentas principais de um bom educador. 

Qual é o olhar que você tem oferecido ao seu filho?”

Sobre a Geração Z

“Hoje se fala muito da Geração Z, que são os nascidos entre 1996 e 2010. A Folha de São Paulo fez uma pesquisa com essas crianças e jovens em vários países, inclusive o Brasil, e descobriu que há três palavras que definem essa geração: consumismo, individualismo e ansiedade.

O consumismo é uma das armadilhas mentais. Pessoas infelizes consomem mais. Quando mais infeliz você é, mais você precisa. É por isso que teu filho quer aquele brinquedo, você se mata para comprar e um final de semana depois onde ele está? Jogado em um canto. Daí ele quer outro. Por quê? Porque ele não quer aquilo. Ele quer a felicidade que falam que ele vai sentir quando tiver aquilo. Como não traz felicidade, isso gera frustração e, com a frustração, a necessidade de novos consumos. Você retroalimenta um ciclo vicioso. Então, é preciso trabalhar isso dentro de casa”.

Imponha limites

“Se você não preparar o seu filho para ouvir um NÃO agora, não espere que quando ele tiver 18-19 anos você consiga falar. Você vai arranjar um grande problema. Os limites são os alicerces que nós construímos para que os nossos filhos caminhem num mundo tão incerto. Quando coloca limites no seu filho, você passa segurança para ele.

É óbvio que nós temos que escutar e dialogar com nosso filho, que nós não podemos projetar a nossa expectativa nele, mas nós, em muitos momentos, precisamos conduzi-los. É importante ouvir, respeitar, acolher, valorizar mais teu filho do que o erro, mas é importante que você coloque limite. E ele não vai deixar de te amar por conta disso”.

Prepare para a vida

“Permitir que nossos filhos se frustrem é importante, até para valorizar uma conquista. Por que os nossos filhos estão tão infelizes tendo tudo? Porque realmente eles estão tendo tudo! E, aí, qualquer problema toma uma dimensão muito grande. Nós precisamos preparar os nossos filhos para a vida e isso significa frustrá-los em alguns momentos”.

Cuide de você

“Para educar, é importante olhar para dentro. Você tem que estar bem, cuidar de você. Quando nós estamos extremamente estressados, o nosso campo de visão é limitado, porque o nível de cortisol, que é o hormônio do estresse, está no pico e isso diminui nosso campo de visão. Ou seja: temos uma visão limitada interpretativa dos fatos. Você acaba tendo um prejuízo, pois tem um linear muito baixo de frustração. Qualquer coisa te irrita a níveis absurdos.

Por isso eu digo: pai bem, filho bem. Nós preparamos nossos filhos para voar e eles precisam saber que a maternidade/paternidade foi algo prazeroso. O teu filho precisa de você feliz.

Pare de olhar o que serve para o resto do mundo. O importante é o que faz sentido para você, para a tua família, para o teu filho.”

Suicídio entre jovens

“Vocês estão vendo o nível absurdo de suicídios? No mundo, hoje, o suicídio já é a segunda maior causa de morte entre jovens. E a tendência é ser cada vez pior, porque os nossos pequenos são bombardeados o tempo todo. Olhe para o teu filho, pergunte, converse. Tente decifrar as lágrimas que você nunca viu que ele chorou.

Não tem como mudar o mundo, mas tem como mudar pessoas. E as pessoas mudam o mundo. Não tem como mudar os padrões de sucesso social, mas tem como preparar seu filho para se sentir importante e bom diante desse mundo em que ele vive.

Esse vazio, esse individualismo, essa ansiedade - outras definições muito marcantes desses jovens - preocupam e nós precisamos entender: Poxa, meu filho vive nessa geração!”

Frustração e depressão

“Pesquisas apontam que 35% das crianças e jovens alegam já ter sofrido depressão. Isso é muito sério! E é uma infelicidade que, muitas vezes, a gente nem sabe o motivo. Às vezes não houve uma situação traumática grave, mas o nível de frustração é tão baixo nessa geração que qualquer coisa deixa os jovens desestabilizados. Por isso você precisa gastar tempo conversando com teu filho”.

Pais exigentes e pais superprotetores

“Nós estamos numa mistura perigosa no processo educacional e vejo isso em muitas famílias. De um lado, pais superprotetores, que geram crianças inseguras, sem anticorpos emocionais para lidar com seus problemas. De outro, pais altamente exigentes.

Preste atenção nas entrelinhas daquilo que você fala, do olhar que você tem com seu filho. Tem pais muito bem intencionados que às vezes o filho chega para mostrar a nota da escola e ele fala: Você não faz mais que a obrigação ou Eu não tive metade do que você teve e olha o que você fazSão as pequenas coisas que nos fazem perder nossos filhos pelas mãos. Não são as grandes.

É sempre uma surpresa quando converso com famílias que perderam seus filhos por suicídio. Nem sempre estava tudo muito claro para que os pais pudessem fazer alguma coisa”.

Seu filho não precisa de Super-Herói

“Dialogue com seu filho e conte do seu fracasso. Ele não precisa de super-herói. Não é você mostrando o quanto fazia mais do que ele que vai fazer com que tome vergonha na cara e queira fazer também. Eu só consigo superar as minhas falhas quando tenho consciência das minhas capacidades.

Sabe aquela pessoa que fala assim: Eu nasci assim, cresci assim, vou morrer assim e tenho muito orgulho. Quem não gostar, paciência? Do ponto de vista emocional, ela é uma pessoa extremamente frágil, ainda que possa parecer ser bem resolvida. Mas sabe por que ela fala isso? Porque olhar para ela dói demais. Então ela ignora todo processo de interiorização, e é por isso que vai morrer assim. Uma pessoa madura do ponto de vista emocional, quando recebe uma crítica, consegue repensar sua história se necessário, mas isso exige uma boa autoestima.

Por isso é importante perguntar: Meu filho tem autoestima para ouvir a crítica que estou fazendo? Ele se sente bom o suficiente para ouvir os feedbacks negativos que eu trago?, Eu elogio antes de criticar?, Ele sabe que eu sei o quanto ele é bom?

Você pode falar o que quiser, pois é pai e está no seu direito, mas a pergunta é: está sendo eficiente?

Eduque pelo exemplo

“Primeiro você é grato, depois você conquista. Primeiro você elogia, para depois esperar uma mudança. O problema é que a gente inverte a conta e cobra. 87% das crianças e jovens, segundo pesquisa, se sentem trocados pelos seus pais pelos smartphones. Às vezes, você fala: Filho, sai do videogame, mas passa horas na internet. Quando nós nos aventuramos a ser pais, precisamos olhar três vezes mais em como nós estamos agindo e reagindo. Qual é o exemplo que você está precisando dar para o seu filho?

Talvez você exige tempo com o seu filho, mas não cria nenhuma oportunidade para que esse tempo aconteça. Às vezes, você reclama da ausência dele, mas não se faz presente”.

Faça a diferença

“Ensine o seu filho a fazer diferente, porque pensamentos negativos e emoções doentes nos bombardeiam diariamente. Não podemos sentar na plateia e assistir uma geração consumista, individualista e ansiosa, e achar que isso é normal. A estatística não é para olhar e pensar: Como o mundo está doente. Coitado do meu filho. Não! É para olhar e falar: Eu vou mudar essa estatística, porque vou conduzir meu filho para ser diferente disso. Estatística é uma referência, não um destino final. O teu filho não precisa estar lá. Cuide de você, cuide da sua relação, construa pontes.

Eu vejo suicídio porque a namoradinha terminou ou porque a menina parou de curtir. Cuidado! Cinco minutos mudam uma história! Ouça o teu filho, se importe com o que ele se importa. Isso é educação socioemocional. É olhar para essa geração e pensar: Como eu posso preparar o meu filho para que ele tenha dias felizes, dias saudáveis em uma sociedade que cresce ansiosa, individualista, consumista e depressiva.

Espero que você olhe para o teu filho com olhar de esperança, mesmo quando ele te decepcionar”.

Seja a sua melhor versão

“Para construir uma relação saudável e feliz com seu filho, é preciso que você se importe com você. Não se leve ao limite, não se coloque no último da agenda. Se você for a última das suas prioridades terá pouco recurso emocional para oferecer estabilidade a ele. Seu filho precisa da sua melhor versão. Se você não liderar essa relação com o teu filho, outras relações irão liderar sua trajetória. E o risco é grande!

Espero que ele olhe para você e diga: Poxa, meu pai e minha mãe têm muitos defeitos, mas eles venceram. E se eles conseguiram, eu também posso. Isso é educar... É ser um referencial possível!

Se importe com o que o seu filho se importa, ainda que para você isso seja a coisa mais banal. Você está construindo um cidadão que se importará com o que você se importa. E aí, sim, nós teremos construído pontes que serão duradouras e perpetuarão por gerações”.